Ao contrário de diversas expressões pejorativas relacionadas ao negro no vocabulário brasileiro, “grana preta” talvez seja aquela que logo vêm à mente quando buscamos alguma que seja sinônimo de algo positivo. Mas se, por um lado, a expressão hoje conota fartura, bem-estar e sucesso, ela também faz pensar sobre quando realmente o dinheiro esteve nas mãos negras deste País.

Trazida ao Brasil para servir de mão de obra escrava, essa enorme parcela da população viveu séculos sem o direito a uma remuneração justa pelo seu trabalho. Contudo, mesmo na adversidade, muitas pessoas optavam por abrir seu próprio negócio e, assim, garantir ganhos melhores com mais respeito e liberdade.

A criadora e presidente da Feira Preta, maior evento de empreendedorismo negro da América Latina, Adriana Barbosa, salienta que é preciso conhecer a história da população negra no País para compreender as soluções e as dificuldades enfrentadas por esses empreendedores hoje. “Porém, também há de se reconhecer pelo menos 130 anos de empreendedorismo do povo negro no Brasil. Foi criando seus negócios por necessidade que a população negra deu conta da sua vida”, diz Adriana. Para ela, agora é o momento de empreender porque quer, com mais planejamento e qualificação.

Atualmente, os negros formam o maior contingente de empreendedores no Brasil (51%), segundo pesquisa da Global Entrepreneurship Monitor (GEM), realizada pelo Sebrae com dados de 2017. O grupo representa 38,8% dos pequenos negócios no País, contra 32,9% dos brancos, e lidera tanto no ranking dos empresários já estabelecidos quanto no de iniciantes.

Isso se deve, conforme especialistas, a uma conjunção entre medidas de reparação político-econômicas adotadas no País e, é claro, anos de luta do movimento negro e de mulheres negras por cidadania. O aumento do poder de compra da população das classes média e baixa, o maior acesso de negros à educação superior através de cotas raciais e sociais, o ingresso com mais qualificação ao mercado de trabalho e a valorização da negritude e da estética afro são os principais fatores que geraram o surgimento de negócios encabeçados por negros e negras e seu sucesso.

A coordenadora da Rede Afroempreendedor no Estado (Reafro-RS), Mariana Ferreira dos Santos, destaca que “o negro está perdendo a vergonha de ser negro”. “Não é fácil ser negro no Brasil, então muitas pessoas tentavam esconder, principalmente quando ascendiam socialmente. Vimos, recentemente, uma maior valorização da nossa cultura, costumes e estética. E, com isso, houve também o crescimento da busca por encontrar produtos voltados para nós”, lembra a também empresária.

Esse aumento da busca por produtos que atendam às necessidades específicas desses consumidores e que gerem reconhecimento, bem como a busca por representatividade negra, criou o que Adriana descreve como uma “onda de ressonância”. Não basta o produto ser voltado à população negra. O lucro com a venda desse produto também deve movimentar iniciativas com recorte racial.

Os consumidores passaram a ver o potencial de mudança atrelado ao seu dinheiro e a escolher o destino do seu investimento. “A própria ideia da Feira Preta surgiu quando eu e uma amiga passamos a vender roupas usadas e alimentos em feiras na Vila Madalena, bairro boêmio de São Paulo, e observamos que grande parte dos consumidores que compravam e se divertiam ali e que trabalhavam eram negros e negras. Mas os donos das casas noturnas, ou seja, quem ficava com o lucro, eram homens brancos”, salienta Adriana.

Mas a criadora e presidente da Feira Preta destaca que a ideia não é se fechar em um gueto. “Estamos abertos a negócios com pessoas de todas etnias”, salienta. Porém, em um sistema que nunca deu protagonismo à população negra, o uso das finanças para o empoderamento é mais uma ação política.

Fonte: https://www.jornaldocomercio.com/