A 3M tem nas mãos o desafio de fomentar a diversidade entre seus funcionários, seja ela de gênero, orientação sexual, étnica ou até de bagagem cultural. Para alcançar o objetivo, no entanto, a companhia precisa fugir de discussões polarizadas e pavimentar uma trilha única, capaz de levar as pessoas a um consenso. Sandra Barquilha, 39, diretora de recursos humanos da organização, aponta ter encontrado uma solução: “Abordar a diversidade a partir da discussão sobre respeito”, diz.

A empresa começou a avançar por este terreno há cerca de cinco anos, após perceber este movimento ganhando força na matriz nos Estados Unidos. Sandra aponta que o primeiro time criado para abordar o tema foi o Fórum de Liderança Feminina: “O grupo de trabalho diagnosticou uma série de desafios para aumentar a participação das mulheres em cargos de comando, como a maternidade, o preconceito e, ainda, a falta de autoconfiança de algumas profissionais para pleitear cargos mais altos. O esforço rendeu bons resultados: “A presença de diretoras no board da organização, por exemplo, saltou de 7% para 30% nos últimos anos”.

Mais tarde a 3M criou o Comitê de Diversidade e Inclusão, uma iniciativa multidisciplinar que reúne profissionais de várias áreas. As pessoas se inscrevem para participar de forma voluntária, algo que Sandra entende ser essencial para a iniciativa dar certo. Assim, o grupo atraiu três diretores da companhia e uma série de outras lideranças.

O trabalho começou a se desdobrar em grupos de afinidade que precisam de fortalecimento na organização: há cerca de dois anos nasceu um destinado à promoção da presença de pessoas LGBT e, mais recentemente, em 2018, foi estabelecido o grupo de afinidade de etnia e raça, focado principalmente em aumentar a participação de negros no ambiente de trabalho. Os times são formados por colaboradores que se identificam com o tema e querem fazer parte, e ajudar a construir um caminho de transformação.

Opinião é pessoal, mas respeito é obrigatório

Em paralelo às iniciativas do comitê, Sandra diz que a 3M vem abordando a diversidade em sua comunicação e reconhece que há, sim, alguma resistência ao tema. Até agora ninguém se opôs de forma direta e clara, mas aqueles mais conservadores demonstram certa surpresa diante de algumas iniciativas, principalmente quando o assunto envolve orientação sexual. “Há uma série de paradigmas pessoais envolvidos”, diz.

Segundo Sandra, a intenção da empresa é colocar o assunto em pauta internamente, provocando uma discussão necessária, ainda que ela não seja muito confortável. “É normal encontrarmos um olhar mais conservador, mas decidimos tratar estes temas de forma aberta e transparente”, diz. E prossegue:

“Não abordamos a diversidade simplesmente porque está moda, é bonito ou para que as pessoas concordem. É impossível controlar a opinião de todo mundo, mas aqui estamos falando de respeito. Você pode discordar, mas precisa respeitar”

Assim, o principal antídoto da companhia para eventuais resistências internas é fugir de discussões filosóficas e abordar tudo sob o mesmo guarda-chuva, o do respeito, independentemente da origem, gênero, orientação sexual ou cor de cada um. Sandra conta que a 3M tem feito uma série de iniciativas para provocar esta reflexão.

Ao trazer para o Brasil a campanha global Wonder, que promoveu uma Post-It War entre funcionários, a empresa usou o nome “Mentes diferentes inspiram” para fomentar a colaboração e a construção coletiva entre pessoas diferentes. Outra ação foi levar o Museu da Empatia para dentro da 3M. A iniciativa traz experiências para que as pessoas olhem o mundo através dos pontos de vista de outras pessoas: é só calçar o sapato de alguém e fazer uma imersão por meio de um áudio. São depoimentos diversos, crianças, transexuais, idosos, negros e representantes de outros grupos. Tudo feito para sensibilizar a audiência e criar novas conexões, estabelecer o diálogo.

“É uma experiência que te coloca no lugar do outro ainda que você não acredite nas mesmas coisas que ele”, resume Sandra. Segundo ela, as mensagens são cuidadosas, mas direto ao ponto, justamente o tipo de comunicação em que a 3M tem apostado para tratar do tema.

Diversidade na contratação

A abordagem da 3M inclui também buscar a diversidade na hora de contratar, uma missão nem sempre tão simples, como conta Sandra:

“Precisamos colocar a diversidade no olhar dos gestores que contratam. Sem perceber, muitos deles descrevem o próprio perfil quando vão falar sobre o tipo de profissional que procuram”

Ela reforça que a tendência é que as pessoas sempre busquem semelhantes – e é justamente este ciclo que precisa ser rompido. “Há também perfis de cargo para os quais nem sempre há mulheres que se candidatam para a vaga”, exemplifica.

Um esforço importante para a companhia é medir de forma mais precisa a diversidade interna. Parece simples, mas na prática as coisas trazem uma camada de complicação, conta Sandra. “Quando falamos de gênero é tranquilo, mas quando entramos na discussão LGBT eu dependo de uma autodeclaração, algo que não é tão frequente, principalmente em uma empresa industrial”, conta.

Com o esforço para fazer da 3M uma empresa mais diversa, Sandra diz ter realizado uma imersão no tema, estudado, ido a eventos e discutido exaustivamente. A diretora entende que os avanços da 3M acontecem passo a passo, mas foram grandes até aqui. Segundo ela, é melhor focar e construir lentamente, mas garantir que as bases sejam sólidas, do que evoluir rápido sem a mesma consistência. “Fico feliz de ver o tanto de gente que se ofereceu de forma voluntária para participar dos grupos, para levar a discussão sobre diversidade adiante”, diz.

Sandra acredita que tratar de um assunto tão humano é mais do que uma simples tarefa no trabalho: inevitavelmente precisa existir um pouco de compromisso com a causa. “É impressionante ver como, ao se envolver com o tema, nos tornamos pessoas melhores”, conclui, levantando bem alto a bandeira do respeito.

Fonte: https://projetodraft.com/