Os pesquisadores do Interdisciplinaridade e Evidências no Debate Educacional (Iede) investigaram, entre 2018 e 2019, boas práticas de escolas públicas de Ensino Médio que, mesmo inseridas em um contexto socioeconômico adverso, conseguem boa aprendizagem. Os resultados estão no estudo Excelência com Equidade no Ensino Médio: a dificuldade das redes de ensino para dar um suporte efetivo às escolas, lançado na quarta-feira (25), em São Paulo. A pesquisa foi feita em parceria com outras três organizações: Fundação Lemann, Instituto Unibanco e Itaú BBA.

A seguir, compartilhamos algumas práticas e estratégias comuns às escolas de bons resultados:

1. Currículo diversificado efetivo, que engaja e dá autonomia aos alunos

Dentre as 5.042 escolas públicas de Ensino Médio passíveis de serem estudadas, em razão do nível socioeconômico de seus alunos, somente 100 atingiram os critérios de qualidade do estudo. Dessas, 82 são escolas de tempo integral. Nessas unidades, o currículo é dividido em duas partes: Base Nacional Comum Curricular (BNCC) e Currículo Diversificado, contemplando aspectos pedagógicos e o desenvolvimento de atividades alternativas. O aluno deve ser estimulado a: aprender a ser, aprender a conviver, aprender a conhecer e aprender a fazer.

Diferentes projetos dão sustentação à parte diversificada do currículo. Dentre eles, destacam-se “Projeto de Vida” e “Empreendedorismo”. Ambos são estruturados a partir dos sonhos e objetivos dos estudantes. No “Projeto de Vida”, no 1o ano, são abordados temas sobre a identidade dos jovens e seus valores, com ênfase em autoestima, autoconfiança e autoconhecimento. No 2o ano, são trabalhadas as escolhas profissionais e é desenvolvido um plano de ação para que os alunos alcancem os seus desejos. É um momento sensível de escuta e troca de experiência.

O currículo ainda abre espaço para trabalhos autorais em cada escola. São projetos interdisciplinares que proporcionam a aplicação do conteúdo na prática, com estímulos à conexão de saberes e à expressão mais ampla das habilidades de cada um. Há, por exemplo, trabalhos de iniciação científica, que são apresentados para a comunidade, participam de eventos e concorrem a prêmios. O professor possui a função de orientador, atuando para facilitar os processos de aquisição de conhecimento, incentivando e instigando os jovens.

As disciplinas eletivas, por sua vez, possibilitam aos adolescentes vivenciarem processos de autonomia e escolha. As aulas acontecem, em geral, duas vezes na semana, e as opções são muitas: teatro, danças regionais, música, lutas, aula de idioma ou redação. São aulas dinâmicas e divertidas, que contribuem para aumentar o entrosamento na escola, já que as turmas são compostas por estudantes de diferentes séries. Em Goiânia, algumas aulas eletivas são sugeridas e conduzidas pelos próprios jovens, sem a participação dos professores. 

2. Decisões baseadas em evidências

O trabalho da gestão é pautado em evidências. Por meio de avaliações diagnósticas, aplicadas no início do ano letivo, a gestão elabora um plano de ação junto aos docentes para intervir nas principais fragilidades dos estudantes. O planejamento é contínuo, com monitoramento do desempenho dos alunos por meio de um sistema integrado de gestão educacional (detalhe: o sistema possui foto de todos os alunos). Além disso, há reuniões semanais com professores por área de conhecimento, com foco nos descritores de cada disciplina.

Há uma organização clara das horas de trabalho dos docentes: todos têm seu trabalho semanal apontado em uma planilha, que divide momentos de aula, planejamento, estudo individual, correção de provas, reuniões e acompanhamento dos alunos.

3. Foco nas relações humanas, com parceria entre professores e alunos

Nas visitas às escolas de bons resultados, observamos que a “Pedagogia da Presença” é amplamente destacada por toda a comunidade escolar. “A diferença é a relação humana”, ouvimos de educadores de diferentes unidades.  O conceito é pautado pelo entendimento do universo do jovem, busca por igualdade, abertura ao diálogo e à escuta, respeito à diversidade, e ações que visam à reflexão e não punição.

As estratégias de acolhimento e recepção mostram-se importantes. O acolhimento ocorre no primeiro dia de aula, com atividades organizadas e geridas pelos próprios alunos. A ideia é entrosar os novatos de maneira descontraída e alegre, além de informá-los sobre o funcionamento da escola, as regras e os combinados. “É uma conversa de jovem para jovem”, contou um deles. Já em algumas escolas, todos os dias, os alunos são recebidos no portão pela diretora (ou outro funcionário) com um bom dia, um sorriso, um aceno. “Muitas vezes, os alunos não têm isso em casa. Aqui todos são esperados”, afirma uma gestora.

Outro projeto relevante que contribui para o fortalecimento das relações entre alunos e professores é chamado de “Tutoria” ou “Professor Diretor de Turma”. Eles têm o papel de acompanhar os jovens de forma mais individualizada, auxiliando-os em relação aos conteúdos escolares e às notas, mas também os apoiando em questões pessoais. O professor tutor ou diretor de turma estabelece bons vínculos com os alunos e cria uma relação de amizade e confiança. “O aluno se sente acolhido, apoiado. É visto, reconhecido”, afirma um dos diretores entrevistados.

Nas rodas de conversa com os jovens, quando questionados sobre seu professor(a) preferido(a), era comum eles mencionarem três ou mais nomes. Eles citavam o empenho do professor para deixar a aula atrativa e tornar o conteúdo claro. “Se você não entendeu, ele explica, e explica de novo, de novo e de novo, até você aprender”, afirmou uma aluna. Outros estudantes disseram que os professores “cobram muito e pegam no pé” quando necessário. “É amorosidade com disciplina”, definiu um deles. Em nenhuma das escolas visitadas foram citados conflitos graves entre alunos ou entre alunos e professores. 

4. Estratégias pedagógicas que conversam com a realidade dos alunos e atendem às diferentes necessidades de aprendizagem

Além dos métodos já citados, que estimulam a criatividade e o protagonismo, as escolas também usam métodos mais tradicionais de fixação do conteúdo, como exercícios e simulados.

Nas escolas visitadas, há um foco na preparação para o Enem e as avaliações externas. Em Pernambuco, por exemplo, são realizados quatro simulados do Enem ao ano, desde o 1º ano do Ensino Médio. As estratégias de preparação incluem grupos de estudos, “aulões” sobre temas específicos, palestras com psicólogos, estudantes universitários ou ex-alunos. Em algumas redes são oferecidos cursinhos gratuitos idealizados por universidades públicas. Na entrada das escolas é comum ter murais com fotos de alunos aprovados em universidades.

Em Pernambuco, existe o projeto ‘A presença que faz diferença’, em que gestores e docentes realizam uma força tarefa nos dias do Enem, com pontos de apoio próximos às escolas. Eles levam kits com lanches, água e bombons para os alunos, assim como estojos com caneta, lápis e borracha. Além disso, formam grupos no WhatsApp para monitorar se todos irão chegar a tempo para fazer a prova.

Em Pernambuco, vale citar outra iniciativa pioneira: o Programa Ganhe o Mundo. São oferecidas a alunos de escolas estaduais mais de 1.000 vagas de intercâmbio para cursos de idiomas, em oito países. O estudante deve optar por língua inglesa, espanhola ou alemã, e participar de um processo seletivo.

Por fim, é preciso dizer que, nas escolas com bons resultados, presenciamos uma comunidade escolar apropriada de suas ações e que se reconhece nos bons resultados obtidos. Foi marcante observar a autonomia, o orgulho e a motivação dos jovens no ambiente escolar.

Texto por Gustavo Rodrigues, coordenador da pesquisa de campo do “Excelência com Equidade no Ensino Médio: a dificuldade das redes de ensino para dar um suporte efetivo às escolas”.

Fonte: Nova Escola.