Falar com, sobre e para as juventudes brasileiras é um desafio e tanto. Como uma rede que se preocupa em pautar a força da pluralidade e da diversidade de narrativas, o Em Movimento tem também o papel de questionar quais recortes precisam ser feitos, para não cairmos na armadilha de achar que  “jovem é tudo igual”.

Em nossa equipe somos em quatro mulheres, com idades entre 22 e 30 anos. No dia a dia, em muitas de nossas conversas, entendemos cada vez mais o privilégio de participar dos avanços e diálogos a respeito de questões que nossas mães e avós sequer ouviram falar na nossa idade. Coordenar grandes projetos, liderar iniciativas importantes, ganhar o próprio dinheiro e reconhecimento com a própria arte… Nós vivemos e realizamos tudo isso, mas estamos conscientes de que esta não é a realidade da maioria. 

Neste ‘Mês da Mulher’, no qual tanto se fala sobre o que é ser uma mulher, não se atentar a especificidades é ignorar o fato de que simplesmente se reconhecer mulher não nos torna um grupo homogêneo, único. Também é ignorar que marcadores como a raça, a identidade de gênero, o lugar de onde se vêm, a formação e muitos outros fatores podem, e não raro ditam, quantas de nós irão ou não acessar oportunidades melhores. Dados de 2019 do IBGE (Instituto Brasileiro de Geografia de Estatística), por exemplo, mostram que mulheres brancas ganham 70% a mais do que mulheres negras no mercado de trabalho, além de terem mais acesso à direitos básicos como abastecimento de água e coleta de lixo. A economista Gabriela Mendes explica que esses dados refletem um contexto histórico da inserção de mulheres negras em funções de trabalho consideradas de menor valor agregado para a economia, como os trabalhos domésticos, informais e terceirizados. Quando analisamos dados como estes, fica nítida a importância da pergunta: “de quais mulheres estamos falando?”, como norte de nossos posicionamentos e projetos, nos quais “mulheres jovens” aparecem.  

Um exemplo disso é o Atlas das Juventudes, a pesquisa nacional que o Em Movimento está realizando em parceria com o Pacto das Juventudes pelos ODS. O Atlas das Juventudes mostrou que as mulheres compõem o único grupo excluído socialmente que não teve perda de renda, comparado a outros grupos. Em tempos em que a independência financeira feminina tem sido fortemente incentivada, essa pode parecer uma notícia positiva, certo? 

Entretanto, o professor Marcelo Neri, coordenador desta etapa do Atlas, levanta um porém: existe a possibilidade de mulheres terem perdido menos em renda, por aceitarem mais os serviços informais (logo, mais precarizados) do que os homens, sendo assim mão de obra mais barata em tempos de crise. O que nos faz novamente pensar em QUEM são essas mulheres, e QUAIS são as condições desta geração de renda. 

Apesar de nos reconhecermos como mulheres, não somos iguais, e muitas vezes são as desigualdades sociais os grandes abismos que nos separam. Mas como podemos buscar mais informações pra sair do que parece óbvio? A gente acredita que a forma mais eficaz é ouvindo as mulheres e suas múltiplas experiências, sem se limitar às que estão apenas em nosso próprio círculo. Além disso, adquirir uma visão macro, pensando um território tão vasto quanto o Brasil, exige que fiquemos de olho nas pesquisas e políticas públicas voltadas às mulheres, e questionando, inclusive, por qual razão algumas de nós sequer fazemos parte das bases de dados. Neste mês e o ano todo, o presente que queremos é que, enquanto sociedade, estejamos interessados em reconhecer, pautar e lutar pelos direitos e necessidades de todas nós.  

3 projetos INCRÍVEIS liderados por mulheres que você precisa conhecer: 

Think Olga

A Think Olga tem como foco criar impacto positivo na vida das mulheres do Brasil e do mundo por meio da comunicação, fomentando debates que sejam catalisadores de mudança e traçando estratégias que promovam transformações culturais. Dentre os projetos já lançados, estão a campanha “Chega de Fiu Fiu” contra o assédio sexual nos espaços públicos, e a “Lista de Mulheres Inspiradoras” que trazia uma referência de mulheres que se destacaram em diversas áreas.

Finanças com a Nath

Lançado em junho de 2019, o Finanças com a Nath é focado em educação financeira para a população de baixa renda. Nos vídeos, Nathália que é estudante de Administração de Empresas, explica desde como limpar o nome no Serasa até como aderir ao saque-aniversário do FGTS.

Winnieteca

A iniciativa, criada por Winnie Bueno com apoio do Instituto Geledes e Twitter Brasil, existe para conectar pessoas através de livros, e promover mudanças contra o racismo. 

Fontes: 

IBGE (Instituto Brasileiro de Geografia de Estatística).

Neri, Marcelo. Jovens, Trabalho, Educação. FGVSocial.