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NA BRASILÂNDIA, NOVO CORONAVÍRUS “É SÓ MAIS UM MOTIVO PARA MORRER”



A relação da Brasilândia, na zona norte de São Paulo, com a morte é diferente da que se estabelece em outras regiões da cidade. “Morrem jovens, morrem mulheres por diferentes causas, então eles não percebem a gravidade que se impõe. A covid-19 não choca, o que choca é a multidão que morre pela violência”, afirma Verônica Machado, fundadora e diretora de Relações Institucionais da ONG Mensageiros da Esperança, moradora há 32 anos da zona norte.

O distrito, que tem hoje quase 265 mil habitantes, é o que registra maior número de mortes decorrentes da covid-19 na capital paulista, segundo a prefeitura. De acordo com os últimos boletins epidemiológicos divulgados pela Secretaria Municipal da Saúde, foram 67 mortes em 21 de abril, 103 em 30 de abril, 123 no dia 6 de maio e 156 em 14 de maio, os maiores números de toda a cidade.

Mas, para quem caminha pelas ruas, ladeiras e vielas da região, é comum encontrar pessoas que ainda não compreendem a necessidade do uso da máscara. “A gente percebe o sofrimento e a dor estampada no rosto das pessoas quando pede para alguém colocar a máscara e a pessoa pergunta ‘o que isso vai adiantar’. Eles já estão cansados de ver a morte de perto”, diz Verônica.

Para Pedro Borges, nascido na zona norte e um dos fundadores da Agência de Notícias Alma Preta, o grande problema da região não é o vírus, é a desigualdade. “A população negra, da periferia, tem outra relação com a morte. É uma conversa de bairro, que não assusta nem espanta. A morte está sempre rondando.” A covid-19, segundo ele, parece ser só mais um motivo para morrer.

Descrédito sobre a letalidade do vírus

Um dos motivos por trás do aumento no número de mortes no distrito, segundo o motorista de ônibus, é o descrédito da população em relação à letalidade do novo coronavírus. “Faço parte de um grupo de time de futebol em que muita gente não acreditava, o pessoal queria sair para tomar uma cerveja. Diziam que a doença era uma invenção.”

“Choro à toa”, diz Sandro, vítima da covid-19

Depois que ficou oito dias internado com febre alta, dor nas costas e sintomas semelhantes à pneumonia, Sandro afirma que os amigos se desesperaram. “Quando um deles soube, começou a fazer isolamento e está assim até hoje.”

Os dias de isolamento de Sandro terminaram há pouco tempo, mas ainda assim ele não se sente em condições de voltar ao convívio social. “Sinto muita vontade de chorar. É difícil ficar o tempo todo deitado em uma cama, com dor e febre”, diz. “Em alguns momentos você sente que consegue resistir. Em outros, sente o medo da morte”, descreve. Para ele, a angústia maior é pensar que “por uma simples falta de ar a pessoa pode não voltar mais.”

Ação em rede para enfrentar o vírus

Quem caminha pelas avenidas e ruas da Brasilândia pode ter a impressão de percorrer diferentes lugares de São Paulo em um mesmo distrito. “É muito grande e tem de tudo: desde lugares urbanizados até comunidades sem água e saneamento”, diz Verônica. Essa característica, segundo ela, faz com que a Brasilândia tenha aspectos diferentes de bairros da zona sul, como Paraisópolis ou Heliópolis.

Esse cenário faz com que muitos comércios permaneçam abertos, uma vez que pessoas em condições de maior vulnerabilidade precisam trabalhar. Outro fator que dificulta o isolamento é a quantidade de pessoas que vivem no mesmo local. “Há uma média de seis a sete pessoas na mesma casa e até 12 no mesmo barraco”, diz Verônica.

ONG Mensageiros da Esperança se reúne em ocupação na Brasilândia

Mas a principal dificuldade de uma região tão populosa quanto a Brasilândia é a falta de articulação entre grupos, ONGs e lideranças locais. “Agora que começamos a nos articular em rede”, diz Verônica. Cada bairro tem, segundo ela, quatro ou cinco instituições que não têm necessariamente contato entre si. “Não se trabalha em rede, falta mapeamento, análise em conjunto”, diz.

“A Brasilândia tem cerca de 500 instituições que precisam se organizar em rede para enfrentar a pandemia”

Verônica Machado, da ONG Mensageiros da Esperança

Pensado nisso, ela montou uma rede composta por 25 instituições. “Tem pessoas que não participam de nenhuma instituição e precisam de ajuda”, diz. Segundo ela, a Brasilândia tem cerca de 500 instituições desarticuladas. Destas, aproximadamente 300 estão organizadas. “São muitos problemas, falta infraestrutura, água, internet”, diz Verônica. “Antes da pandemia, a Brasilândia era invisível, agora a covid-19 descortinou todos esses problemas”, afirma.

Na avaliação de Verônica, o distrito ainda possui cerca de 30% de pessoas que não estão conscientes sobre o avanço da pandemia. Para alcançar esse grupo de pessoas, composto em sua maioria por jovens e comércios que se mantêm abertos, ela organizou a campanha “Todas as vidas importam”.

Grupos começam a se organizar em rede contra a pandemia

Na ação, quatro aspectos são trabalhados com os moradores: conscientização, com cartazes, carros de som e anúncios, segurança alimentar, com doação de cestas básicas, produtos de limpeza, frutas, legumes e doces para crianças, higiene e prevenção, com a doação de kits e orientações de profissionais de saúde e cuidado com os cuidadores, que significa atendimento psicológico para colaboradores da instituição.

O agravante, segundo Verônica, é a desigualdade social dentro do próprio distrito. “Visitei a ocupação da Sabesp e da Capadócia e fiquei chocada com a falta de estrutura de um lugar próximo ao centro urbano”, diz. “Ali, estão pessoas que fazem uso excessivo do álcool, de drogas, idosos que moram sozinhos e que foram abandonados pela vida. É uma Brasilândia dentro da Brasilândia.”

Neste momento, Verônica tem duas preocupações. A primeira é que o ritmo de doações comece a cair. “Muitas famílias me procuram para obter ajuda com alimentos e máscaras.” A segunda é com a volta dos trabalhadores do distrito ao mercado de trabalho. “Em julho, vamos começar a conversar com os microempreendedores, ajudá-los a voltar para a economia.”

Doações e conscientização

Fazer os moradores do Jardim Carumbé, um dos bairros da Brasilândia, entenderem a gravidade da covid-19 é a árdua missão de pessoas como Luís Augusto Lima da Silva, de 34 anos. Ele trabalha como motorista de aplicativo e faz ações sociais pela Central Única das Favelas.

“Estamos tentando fazer as pessoas cumprirem o isolamento, mas isso não acontece, mesmo com as ações de líderes locais e orientações das UBS. As pessoas não estão levando a sério”, diz. “Só vão ter ciência se perderem algum parente próximo.”

“Se pedimos para ficar em casa, não funciona. É preciso começar pedindo que usem máscara e lavem as mãos”

Luís Augusto Lima da Silva, de 34 anos, da Cufa

Para ele, que sai às ruas para conversar com pessoas, os jovens têm muita resistência a fazer o isolamento. “Eles dizem que não vão pegar por serem jovens e sentem falta de ter um espaço para conversar”, diz.

Apesar da dificuldade e do cansaço em fazer este trabalho diariamente, Luis diz que sem esse tipo de mobilização seria ainda pior. “Se chegamos e pedimos para ficar em casa, não funciona. É preciso começar pedindo que usem máscara, lavem as mãos, troquem de roupas.”

Luis é casado e pai de quatro filhas. “Minha esposa trabalha e conseguimos nos manter. Mas bate um cansaço, um desânimo”, diz. “Se essa pandemia continuar, não temos opção. Se a gente chegar no lockdown, vai ser complicado. Olho para as pessoas na favela e vejo que elas não têm o básico, que é o saneamento básico. Como essas pessoas vão fazer? Dá um desespero só de pensar.”

Autônomo, Robson usa o caminhão para doações

O trabalhador autônomo Robson Santos Franco, de 31 anos, não suportou ver os números de mortes subirem. Com o caminhão que usa para trabalhar, começou a fazer entregas de cestas básicas. “A Brasilândia é muito grande, são muitos bairros dentro de um mesmo bairro”, diz. A partir de uma campanha de arrecadação de recursos on-line, ele e outros voluntários fizeram uma parceria com um supermercado para comprarem alimentos a preços acessíveis. “Ajudamos eles e eles nos ajudaram.”

Assim, Robson ajuda a montar e entregar cerca de 50 cestas aos finais de semana junto com pessoas da área da saúde e assistentes sociais para moradores mais afetados pela crise. “Tem muita gente que está em casa e não sabe o que fazer.”

Apesar de tentar ajudar os vizinhos, Robson ainda não recebeu o prometido auxílio emergencial do governo federal. “Depois de ter ficado 30 dias em análise, não consegui. Só penso em como sobreviver na semana, se pensar no mês inteiro eu piro”, afirma ele que vive com a companheira e dois filhos, de três e seis anos. “Temos um espaço bom e confortável aqui, mas as contas chegam.”

“A gente se sente impotente”

A agente de saúde Elaine Machado, de 29 anos, percebeu uma mudança no comportamento dos moradores da Brasilândia. “As pessoas acabaram se conscientizando porque o vírus está mais perto. Não vemos tantas pessoas em ruas que tiveram casos.” Esta é, segundo ela, a grande dificuldade em se combater a pandemia. “Os moradores só acreditam quando conhecem alguém próximo que tenha se contaminado ou morrido.”

Agente de saúde, Elaine monitora 233 família que vivem na rua Inverno

Elaine cuida sozinha de 233 famílias que vivem na rua do Inverno, na Brasilândia. “Acompanhamos por telefone quem está em isolamento e fazemos visitas sem entrar nas casas, falamos só pelo portão”, diz. “Gostaríamos de poder fazer mais, mas não conseguimos por falta de ajuda e estrutura. Tem muitas casas que não têm água na residência.”

Há pouco menos de duas semanas, Elaine acompanhou o caso de uma mulher de 60 anos acometida pela covid-19. “Na hora que ela morreu, não se sabia, só depois que o teste deu positivo”, diz. “Conversei com o marido dela e foi muito triste, ele se encostou no portão e começou a chorar. Deu para sentir a necessidade que ele tinha de um abraço e eu não pude fazer nada. A gente se sente impotente.”

“Quando mais gente informada, melhor”, diz Elaine

A agente de saúde tem observado que, muitas vezes, as mortes têm sido abafadas, uma vez que os moradores evitam falar sobre a doença. “Quanto mais gente souber, melhor”, afirma. A primeira recomendação, segundo ela, é que qualquer pessoa que apresente sintomas vá até a Unidade Básica de Saúde. “Muitas pessoas ficam com vergonha, sentem medo e não vêm.”

Apesar da sensação de impotência, o trabalho de Elaine é intenso. Uma vez por semana, sai em carros de som da prefeitura para fazer alertas à comunidade. A equipe também usa um megafone para percorrer as ruas e dar orientações.

Depressão e preconceito

Para as pessoas infectadas, o enfrentamento à covid-19 não se encerra no 14º dia de isolamento. Os impactos psicológicos da doença vão muito além desse período. O motorista de ônibus Sandro teme o retorno à rotina. “Hoje eu choro à toa, pretendo ficar mais alguns dias isolado”, diz. “Não sei como vou fazer para voltar a trabalhar e pegar ônibus lotado, não vou enfrentar isso, só eu sei o que passei.”

Ocupação: “são pessoas que não tem o básico”, diz membro da Cufa

Como motorista de ônibus, Sandro tem contato frequente com os usuários do transporte público. “Lido com pessoas e mexo com dinheiro o dia todo”, diz. Os primeiros sintomas da doença foram as fortes dores nas costas. “O raio-x constatou uma mancha no pulmão, mas a médica classificou como sintomas leves. Mesmo assim decidiu internar. O medo foi imenso.”

Sandro passou oito dias internado na área de isolamento de um hospital particular na Mooca, na zona leste da cidade, para onde foi transferido. “Tive febre alta, dor nas juntas e no corpo inteiro, a boca ficou ressecada, senti a perda de olfato e paladar. Perdi 8 quilos.”

“Quem pegou se sente rejeitado e sofre preconceito em casa ou para arrumar um emprego”

Luís Augusto Lima da Silva, da Cufa

Além da depressão e dos impactos psicológicos, quem percorre as ruas e bairros da Brasilândia relata outra face cruel da pandemia: o preconceito. “Não tem sido fácil conversar com as pessoas”, Luis Augusto Lima da Silva, da Cufa.

“Quem já pegou está sofrendo discriminação. Muitas pessoas que pegaram se sentem rejeitadas dentro da própria casa. Existem também pessoas que perderam o emprego porque tiveram a covid-19 e não conseguem retornar. E pessoas que estão com vergonha de dizer que têm sintomas.”

O que diz a prefeitura

Questionada se haveria uma ação especial para lidar com a pandemia na região da Brasilândia, a Prefeitura de São Paulo, por meio da Secretaria Municipal da Saúde, respondeu por meio nota informando que até o final do mês, o Hospital Municipal da Brasilândia contará com 150 leitos de UTI (Unidade de Terapia Intensiva) e 30 leitos de transição exclusivos para o tratamento de pessoas com covid-19. Ainda de acordo com a nota, na segunda-feira foram entregues 20 novos leitos de UTI e outros 16 leitos de enfermaria.

A prefeitura informa que conta ainda com ações comunitárias e parcerias com lideranças locais para distribuir máscaras e reforçar as orientações de isolamento social.

Nas unidades de saúde da região, os pacientes com sintomes de gripe são orientados a irem para casa quando apresentam quadros leves. Mas, são monitorados diariamente e encaminhados para Hospitais de Campanha, conforme necessidade.

Fonte: R7

 

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